Toda mudança na vida de qualquer pessoa traz consigo algum nível de tensão emocional. Os psicólogos são unânimes em concordar que certos níveis de ansiedade durante fases de transição – para uma nova experiência – são esperados e afetam todo ser vivente. E não quer dizer que isso seja uma coisa ruim. Afinal de contas, se acontece naturalmente com todos, é porque algum proveito traz para a natureza humana…

Mas, e quando acontece algo inesperado que gera um turbilhão de pensamentos e de sentimentos, que variam desde a aflição até aquela sensação de incapacidade de saber qual a melhor decisão a tomar? E quando alguém se depara com a necessidade de tomar decisões realmente sérias que terão consequências para toda a vida? Nesses casos mais delicados, como tomar a decisão mais prudente e saudável?

Quando a sociedade e a propaganda sugerem diversas possibilidades de decisão, às vezes até contrapostas, a tensão psicológica tende a aumentar, porque toda responsabilidade pela escolha cai sobre quem dá a última palavra. Uma boa dose de estresse vem porque nem sempre podemos prever, nem de longe, quais serão as consequências de uma ou de outra escolha. 

A falta de informação confiável – que leve em consideração a pessoa como um todo, no conjunto de seus afetos, sentimentos, crenças e expectativas – sobre os efeitos reais de certas decisões sobre a mulher é uma das maiores causas das grandes aflições e perplexidades na hora de ter de discernir qual a melhor atitude frente a um caso complicado. 

Neste artigo, trataremos de um assunto que requer maturidade, pois deve ser levado a sério e examinado em todos os seus aspectos: o processo de tomadas de decisão quando se passa por uma gravidez indesejada.

Como lidar com uma gravidez indesejada: algumas controvérsias

Considerando as infindáveis discussões sobre o tema da gravidez indesejada, tanto nos meios políticos quanto nos meios acadêmicos, faz-se necessário examinar de mais perto os debates que são constantemente fomentados nessas esferas e que são amplamente levados a público pelos meios de comunicação. Sendo um assunto de tão grande importância, que lida diretamente com vidas, requer-se muita cautela, delicadeza e a mais absoluta firmeza na hora de ponderar as maneiras de se lidar com essa realidade. 

Muitos são os casos de mulheres que, tendo engravidado e não encontrado apoio para prosseguir com a maternidade, acabam recorrendo, num momento de angústia, ao aborto – a maioria delas, por pensarem que esta seria a solução definitiva para as dificuldades que precisam enfrentar, sozinhas, a partir da gravidez. Porém, para grande parte delas, aquilo que parecia ser a melhor alternativa para lidar com uma gravidez indesejada, revelou-se uma verdadeira causa de adoecimento psicológico pós-aborto.  

Por conta disso, a maioria delas dizem lamentar muito por não terem sido melhor informadas sobre os impactos de um aborto antes de terem optado por este. A alta prevalência de arrependimento e de transtornos psicológicos associados à consumação de um aborto são fortes sinais de alerta de que o aborto, sobretudo o voluntário, agride profundamente a mulher, não apenas fisicamente, mas espiritual e psicologicamente. E os impactos psicológicos, conforme já constatado por vários estudos com mulheres que abortaram, duram não apenas um momento, mas são duradouros, e às vezes os efeitos negativos começam a ser notados por algumas mulheres apenas vários anos após terem feito o aborto.

Em sua revisão de 287 artigos científicos sobre o aborto, publicados entre 2005 e 2018, David Reardon enfatiza que tanto pesquisadores que são pessoalmente contra o aborto quanto os que são a favor do aborto são unânimes em concordar com isto: que o aborto está consistentemente associado com níveis elevados de adoecimento psíquico, ao comparar mulheres que já abortaram com mulheres que nunca abortaram. E o autor acrescenta que esses resultados foram obtidos em um país onde o aborto é legalizado.

Previamente, pesquisadores noruegueses da Universidade de Oslo, em um artigo de 2005 publicado na revista acadêmica PMC Medicine, já haviam reforçado a importância de se oferecer às mulheres informações sobre os efeitos psicológicos da perda de um filho, seja naturalmente, seja por aborto premeditado. A matéria em português consta nesta página da BBC Brasil.

No Brasil, entre 2008 e 2010, foi conduzido um estudo por uma psicóloga clínica hospitalar com mulheres que realizaram voluntariamente um aborto. Das 120 mulheres entrevistadas pela profissional em dois hospitais públicos de São Paulo, todas relataram passar por sofrimentos de ordem física e psicológica após o procedimento de aborto. “O aborto é tido como uma perda para todas elas e, como tal, há a fase do luto, da negação, da revolta, da aceitação e também da depressão.”, concluiu a psicóloga.

O acolhimento e a assistência à mulher com gravidez indesejada como opção mais segura 

Haveria então alguma alternativa capaz de ajudar efetivamente a mulher que sofre com uma gravidez indesejada e que não sabe como prosseguir? O acolhimento e a escuta em seu sofrimento, acompanhado do oferecimento de vários tipos de apoio, são opções que têm ganhado espaço e mostrado resultados gratificantes.

Quando se trata de acolher e de aconselhar quem está em sofrimento por conta de uma gravidez indesejada ou inesperada, exige-se, em primeiro lugar, empatia de quem acolhe por quem procura ser ouvida em suas aflições e dúvidas. Julgamentos não têm vez quando o momento é de acolher.

Na acolhida, é fundamental facilitar uma comunicação imbuída de bondade e de verdade, porque é fato constatado que o ser humano tende a se comprazer, alegrando-se de forma íntima e duradoura, com o que é bom e verdadeiro, e tende a se desgostar e a se ferir com o que é mau e falso. Como já havia observado Platão, “O bem é amado por si mesmo, e tudo o mais que se ama é ordenado ao amor do bem.”

Como complemento relevante à acolhida e à escuta, as tensões emocionais da mulher serão também aliviadas ao receber a orientação e o auxílio – que podem ser de ordem material, psicológica, médica, jurídica e assistencial – que a ajudarão a ter uma experiência mais gratificante e mais segura, ao contar com o apoio de que necessita. Em suas várias dúvidas, as informações fornecidas à mulher grávida devem ser necessariamente condizentes com a vida real, retiradas de exemplos de casos mais ou menos semelhantes ao seu. Sem que se leve em conta seriamente o que já foi constatado em estudos, qualquer orientação é duvidosa.

Assim, feitos todos os esclarecimentos solicitados pela mulher grávida, será possível facilitar-lhe uma tomada uma decisão pessoal mais consciente. Refletir sobre as consequências certas e as prováveis de uma ou de outra alternativa que se apresenta é coisa de real importância, que não deve ser subestimada. Porque uma escolha acertada é causa de grande satisfação para quem a faz, enquanto uma escolha feita irrefletidamente, sob pressão de fortes emoções, como o medo e a angústia, e quiçá sob instigação de terceiros, pode ser causa de tristeza e até de traumas psíquicos posteriores.

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