Como sonhei para que o dia do meu casamento chegasse! Sempre pedi um marido companheiro, verdadeiro, fiel e acima de tudo que fosse um homem de Deus, para formar uma boa família.

Eis que nossa alegria se completava após dois meses de casados: eu estava grávida. Quanta felicidade, não sabia direito o que estava sentindo, era um misto de sensações: receio pelo novo, apreensão e insegurança de achar que não daria conta de criar um filho. Descobri que estava grávida com duas semanas de gestação, bem no início, e desde então pude observar um leve sangramento que me levou várias vezes ao pronto socorro.

Devido à pouca idade gestacional não aparecia nada nos exames de imagem, somente no exame de sangue. O sangramento e as cólicas nunca pararam totalmente, e, quando fui fazer a transvaginal de 7 semanas, não conseguimos ouvir o coração e não apareceu nada no exame. Voltei pra casa abalada e sem saber explicar o que tava sentindo, pois toda a alegria da descoberta da gravidez se misturou com aquele sentimento estranho da perda.

Nos dias que se seguiram, o sangramento intensificou mais e mais e pude realmente confirmar que tinha sofrido um aborto espontâneo. Não precisei fazer nenhum procedimento cirúrgico pois o próprio corpo se encarregou do processo de reorganização.  

Como é triste passar por esse processo perda. Fiquei sem ação; para ser mais específica, não tinha muita reação, e o médico me dizia: “fique tranquila, é normal perder a primeira gravidez”.

Senti na pele a falta de empatia dos profissionais da área de saúde que não estão humanizados para lidar com esse tipo de acontecimento nem para acolher a mulher após passar por um processo triste como esse.

Seguimos nossa vida, mas eu a cada dia mais tentava entender o porquê, o que teria acontecido. Enfim continuamos nossas vidas “normalmente”.  Tínhamos que seguir.

Um ano e cinco meses após a primeira gravidez eis a boa notícia: estava grávida novamente! Que emoção, como eu estava feliz pela nova oportunidade, por poder gerar aquela vida.  Lembro como eu pedia a Deus para dar certo e não me deixar perder aquele bebê.

Primeiro, de acordo com exame de ecografia transvaginal eu estava com seis semanas e, com o meu coração a mil de ansiedade, eis que ouço o som mais lindo do mundo, a batida do coração do meu filho, que batia e batia forte vigoroso!, Como ficamos felizes! Saímos vibrantes da sala de exames; eu só sabia agradecer e não parava de sonhar com aquele som maravilhoso.

Os dias foram se passando e, uma certa manhã, acordei com uma cólica bem forte ao pé da barriga. Liguei para o médico, que me acalmou e disse que era normal, que eu só deveria me preocupar se eu tivesse sangramento vermelho vivo associado à cólica. Depois dessa fala, não me preocupei, e não senti mais cólica.

Chegou o dia do exame do primeiro trimestre; o médico iniciou o exame. Vi que, na hora que ele olhou para o monitor, seu semblante mudou. Ele ficou sério e silencioso e eu fui ficando preocupada até que ele falou: “sinto muito, mas não consigo ver atividade cardíaca nem o feto vivo”.

Naquele momento, fui teletransportada para outro mundo, no qual eu não ouvia nada mais envolta de mim e tudo foi passando como câmera lenta ao meu redor. Fui para o vestiário, vesti minha roupa e saí daquele local o mais rápido possível, deixando meu esposo para resolver o resto e pegar o resultado do exame. Lembro que caminhei até chegar na escada onde eu sentei e ali desabei.

Chorei muito e não conseguia me controlar. Meu esposo logo chegou e me acalmou. Ele, embora triste, me dizia: “calma, amor, a gente tenta de novo. Vamos tentar sempre”. Minha segunda perda gestacional, aborto retido. Essas palavras ganharam vários significados: sonhos retidos, alegria retida, expectativa retida.

O sentimento de impotência era tão grande em mim; me sentia tão mal, tão indigna de tudo. Ah, e como eu questionei Deus: “Por quê, Senhor? Por quê comigo? Eu te sirvo, te entreguei minha vida, me dispus trabalhar a serviço do reino e isso acontece comigo? Eu me considerava uma boa cristã e não entendia. Houve muitos outros questionamentos que eu poderia ficar citando aqui, mil deles que passavam em minha cabeça naquele momento.

Como se não bastasse o que eu estava vivendo, eu teria que decidir fazer o procedimento cirúrgico ou aguardar meu corpo começar a expulsar a criança naturalmente. Escolhi esperar. As semanas foram passando e, com isso, a tortura se alongava, pois eu contava, a cada semana, o tempo de gestação que eu estaria completando caso meu bebê estivesse bem.

Um mês e três semanas e nada de o corpo responder. O médico me informou que a partir dali não seria mais seguro aguardar. Essa conversa aconteceu em um domingo, então marcamos o procedimento para a terça-feira da semana que começava, dia em que ele estaria no hospital e me atenderia.

Na noite de segunda para terça não dormi, pois comecei a sentir muita cólica fortíssima, contrações que vinham e cessavam, em intervalos irregulares. Foi uma noite muito longa, de muitos banhos quentes. Comecei a sangrar um pouco e a dor intensificava.

Meu marido esteve todo tempo ao meu lado: nos banhos para aliviar a dor, nos meus choros; ele massageava minha coluna e sentia tudo, a dor por saber que meu pequenininho estava ali ainda no meu útero e por saber que aquela seria mesmo a despedida final. Enfim conseguimos dormir e, logo cedo, fui para hospital para realizar o procedimento médico.

Tive uma sensação estranha e ruim a caminho do centro cirúrgico. Os médicos passaram indiferentes à situação. Talvez estivessem acostumados a lidar com esse tipo de procedimento. Não me lembro de nada que aconteceu durante alguns minutos e só acordei com a enfermeira me chamando e informando que estava me levando para sala de recuperação. Disse-me que tudo tinha acabado e que estava tudo bem.

Tive minutos de tranqüilidade até a realidade bater novamente ao coração. Que vazio, que sentimento ruim de abandono e de fragilidade. Voltei a sentir calma novamente quando cheguei no quarto e vi meu esposo, lá, com a carinha mais assustada do mundo, preocupado. Nós nos abraçamos, choramos juntos e nos fortalecemos como casal naquela situação.

Eu poderia escrever um livro com todos os sentimentos e palavras que brotaram em meu coração naquele momento, porém não posso me estender mais. O que eu quero dizer é que dói, dói e não tem remédio que cure. O tempo não faz parar de doer, mas nos permite aceitar  a situação. Desde que decidi confiar no tempo de Deus e a Ele servir, me coloco sob a vontade de Deus.

Atualmente estamos esperando nosso terceiro bebê. Claro que sigo a cada dia com minhas inquietações, mas vejo Deus provando cada vez mais que me ama com um amor imenso e que preciso crer sem hesitar. Nesse segundo semestre de 2018 completamos 17 semanas. Estamos muito felizes, mas, tenho medo? Sim, tenho, só que a esperança é maior. A alegria de poder vivenciar esse milagre acontecendo em meu ventre é algo mágico, a barriga finalmente crescendo!

Não conheço sua história, nem se você acredita ou não em Deus. Não sei se você já perdeu um ou mais filhos, por qualquer motivo que seja, ou se tem um diagnóstico de que não possa engravidar. Não sei se você é solteira, casada, divorciada, se foi abandonada. Mas, se decidi escrever minha história, é para que você não deixe de sonhar, nunca desista! Que seu passado não roube a alegria da esperança e que você tenha a felicidade de, um dia, ter seus novemeses.

Ainda assim, lembro sempre o que uma vez me deu muito conforto. Eu perdi dois filhos, mas são filhos. Sou mãe de dois, e desse terceiro. Lembre, se já perdeu, é porque você já virou mãe.

E se você nunca conseguiu engravidar, lembre que há muitas crianças por aí que precisam de uma família, de uma mãe como você. Coragem. Não tenha medo de ser mãe de um filho que te espera. E se engravidar depois? Bem, a família estará crescendo!

A.M.A.D

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