Grávida e desempregada4 minutos de leitura

por Nove Meses

Por volta das 13 horas do dia 19 de junho mandei uma mensagem para um contato que haviam me passado. Uma pessoa que poderia me ajudar a resolver um problema, a gravidez indesejada. Eu estivera gravida de gêmeos e, aos quatro meses, fui ao hospital retirar um deles que havia morrido. Na verdade, eu não queria nenhum dos dois.

Tudo o que eu não queria era ter um bebê. Eu estava entrando no sexto mês de gestação, tinha passado por uma intervenção cirúrgica aos quatro meses e ninguém imaginava que eu estava grávida. Todas as emoções, tudo, em segredo. Contei sobre a gravidez apenas após muitos meses, para o pai.

Nesse turbilhão de pensamentos e emoções consegui um telefone. A pessoa me atenderia. Eu tiraria minhas dúvidas sobre o procedimento de aborto. Afinal, já estava com a gestação avançada. No fundo do meu coração, porém, eu queria aquela criança, ainda que fosse um querer “fraquinho”.

Eu sabia que seria uma loucura dar seguimento. Era impossível ter e sustentar um filho. Meus estudos, meu futuro. Até conseguiria abrir mão disso por um ano ou dois, até o bebe crescer um pouquinho e tudo voltar ao normal. O problema era outro.

Embora minha família fosse considerada de classe média, há meses estávamos passando fome e outras dificuldades, porque meu pai estava punindo minha mãe, dona de casa, deixando de pagar a pensão. Meus irmãos, de 17 e 15 anos, assim como eu e meu namorado, também não trabalhavam.

Conversei com a pessoa e fiquei ainda mais confusa. A ideia de praticar um crime, de realmente perder para sempre o bebe e de me expor ao risco de um aborto clandestino me deixaram enjoada. Estava fraca, triste, sozinha e sem alternativas. Mas tinha que continuar. Só que eu não podia morrer. Minha mãe, em profunda depressão, dependia de mim, assim como meus dois irmãos.

Nunca tinha pensado seriamente nisso. Tenho apenas 19 anos e meu namorado, desempregado, 21. Ele mora comigo, com meus dois irmãos e minha mãe. Meu pai está fora de casa respondendo a um processo por ter sido acusado justamente de violência doméstica.

Fui fazer a ecografia para saber como estava a situação. Peguei o resultado e, na consulta ginecológica que arranjaram para mim, conheci uma medica incrível e muito humana. Ela descobriu várias questões de saúde e começou a me dar apoio. Ouviu minhas dores e não me julgou. Depois de falar com ela, simplesmente não conseguiria mais dar seguimento ao plano A. Era a vida que me revelava surpresas.

Ao longo dos meses, essa medica e outras pessoas apareceram em minha vida. Recebi apoio emocional, fiz novos amigos, recebi apoio material. Berço, fraldas. Claro, era uma ajuda paliativa, mas foi o que precisava para ter coragem de assumir para meu namorado que queria ter nosso filho.

Hoje, dia 30 de setembro, ainda estamos no hospital. Faz uma semana. Meu bebe não teve alta ainda. A infecção decorrente da intervenção para a retirada do gêmeo aos quatro meses de gestação foi combatida com antibióticos a época, mas, aparentemente, prejudicou o Miguel*.

A verdade e que não entendo muito bem o quadro dele. Encontro-me com muitas dores, meus pontos inflamaram (ia ter parto normal, mas estava tão fraca que tiveram que me levar para uma cesárea), estou cansada e tive dificuldade em amamentar a criança.

Além disso, por conta da depressão, minha mãe não conseguiu me visitar muitas vezes nessa longa semana de internação.
A alegria de ser mãe e enorme, meu filho é lindo, mas não tem sido fácil. Não me arrependo. Meu namorado tem me dado apoio e vejo que cresci muito e que estou mais forte.

Sinto-me feliz por ter recebido essa criança, meu filho, ainda que numa situação tão adversa. Sinto-me forte por ter pensado mais no Miguel* do que em mim. Vou batalhar para dar certo.

Se você estiver numa situação de gravidez não planejada, saiba que não precisa estar sozinha. Há muitas redes de apoio no Brasil, do governo e mesmo de ONG. Também descobri a generosidade de muitas pessoas que querem nos ajudar.

Quando minha amiga me perguntou se eu poderia dar meu testemunho, fiquei pensativa, mas cheguei a uma conclusão. As vezes uma situação muito ruim pode trazer a você muitas surpresas. Foi o que descobri nessa longa jornada de nove longos e desesperadores meses.

A chegada do meu príncipe me traz esperança, decidi que já tinha forca suficiente para partilhar essa história e motivar você a ter coragem. Sabe, a responsabilidade da gravidez para a mulher é muito dura, mas quando vi meu bebe, entendi muita coisa, que só quem é mãe entenderá.

 

L. H. N., 19 anos, DF, mãe de Miguel (*nome fictício).

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